Por Serviço Bloomberg Professional
Gestores que usam estratégias ativas sabem da pressão que andam sofrendo. Diversos estudos ressaltaram o desempenho inferior desses fundos quando se considera as taxas que cobram, colocando em xeque o valor que oferecem. Ao longo de cinco anos, somente 5,69% dos fundos mútuos dos EUA superaram a taxa de retorno do S&P 500. Investidores e órgãos reguladores no mundo inteiro questionam até que ponto esses fundos são “ativos” e, em alguns casos, identificaram abertamente gestoras que administram carteiras com pouca atividade (segundo o desvio da exposição às referências).
É nítida e intensa a tendência de saída de recursos dos fundos de gestão ativa na direção de estruturas passivas. Os fundos mútuos ativos sofreram saídas líquidas de US$ 735,78 bilhões em 2014-2016, enquanto fundos mútuos que acompanham índices receberam US$ 512,02 bilhões. A indústria global de fundos negociados em bolsa (ETFs), que praticamente nem existia 20 anos atrás, hoje movimenta US$ 4,79 trilhões e cresce rapidamente. O total de ativos dos ETFs globalmente aumentou 12,75% em 2017. Para se ter uma ideia, os ETFs atualmente ultrapassaram os fundos de hedge em aproximadamente US$ 800 bilhões e a diferença se amplia todo mês. ETFs são fáceis de negociar, têm baixo custo e, como agora estão disponíveis para a maioria das classes de ativos e regiões geográficas, podem servir como componentes fundamentais em um processo de alocação de recursos.
Para Deborah Fuhr, Managing Partner da ETFGI, uma firma independente de pesquisas sobre ETFs, o crescimento da categoria pode se acelerar com a superação de alguns desafios estruturais. Ela destaca que poucos consultores de investimento recebem incentivos para recomendar ETFs aos clientes e que muitas plataformas de investimento argumentam que não há demanda por esses instrumentos. “Não há demanda porque não são oferecidos. As plataformas não desenvolveram a tecnologia para negociá-los”, explica Fuhr. Em vez disso, é frequente a oferta de fundos que acompanham índices, que costumam ser mais caros. Por isso, segundo ela, muitos investidores não recebem os benefícios associados aos ETFs. “Para quem quiser comprar barras de ouro ou ações negociadas no mercado chinês, os ETFs são o caminho mais fácil.”
ETFs também vêm com problemas. Uma preocupação é saber até que ponto um ETF acompanha seu índice de referência. Outro sinal de alerta é se a entidade que escolheu o fundo for responsável por mais de 20% do volume diário de negócios com um ETF. Na Europa, a transparência é outra consideração relevante. Lá, 70% das transações são feitas em mercados de balcão. Isso pode esbarrar nos princípios de MiFID II, que exigem a melhor execução e transparência em se tratando de custos de pesquisas e taxas pagas a diversos prestadores de serviços.
Investidores estão dispostos a pagar por habilidades genuínas
Tudo isso deixa a porta aberta para uma melhora da situação das gestoras de recursos de perfil ativo. Para que isso aconteça, essas firmas precisam estabelecer uma narrativa clara. Elas podem argumentar que estão em posição ideal para explorar ineficiências criadas por investidores com viés inerente, como, por exemplo, planos de previdência que compram títulos públicos de longo prazo a qualquer preço. Outras ineficiências incluem a recusa de alguns investidores a comprar papéis de determinados setores e regulamentos que proíbem a negociação de instrumentos financeiros considerados arriscados demais por bancos centrais e órgãos reguladores.
O grande número de instituições de investimento que não buscam maximizar o retorno ajustado pelo risco cria um terreno fértil para compradores decididamente focados neste objetivo.
“Precisamos contar uma história sobre habilidades”, acredita Michael Amey, diretor-gerente da Pimco Europe. Existem boas ideias, que podem ser executadas habilmente. Os investidores estão dispostos a pagar por isso. Segundo ele, o mercado de renda fixa oferece oportunidades generosas de escolha para gestores verdadeiramente ativos.
Esses gestores podem, por exemplo, capturar o prêmio de rendimento oferecido por empresas que emitem novos títulos para estimular compradores a vender os títulos antigos que detêm e adquirir os papéis novos. Como 20% do total de títulos em circulação foram emitidos nos 12 meses anteriores, trata-se de uma oportunidade substancial. Outra estratégia ativa no mercado de títulos é tirar proveito dos mandatos de investidores institucionais que são obrigados a comprar títulos de curto prazo. “Eles só podem comprar papéis de um ano, enquanto nós podemos comprar instrumentos com vencimento em mais de 50 anos”, diz Amey.
A gestão ativa tenta voltar com força e o debate sobre estratégias ativas e passivas continuará. Mas, de certo modo, o próprio debate é simplista. Primeiramente, não se trata de uma escolha absoluta para os investidores. Há espaço para as duas modalidades nas carteiras. Em segundo lugar, índices smart beta (que usam esquemas alternativos de ponderação em vez da ponderação tradicional por valor de mercado) estão ganhando espaço nas duas estratégias, se apresentando como o melhor dos dois mundos.
“Vemos como positivos os últimos desdobramentos”, diz Fuhr. “Os investidores estão perguntando sobre as maneiras certas de investir, sobre como obter valor e performance. É uma discussão importante.”