Por Serviço Professional Services
As grandes perguntas dos últimos anos sobre a economia ainda dominam as atenções na atualidade: Quando os juros vão subir? Os mercados estão precificando corretamente potenciais aumentos nas taxas?
Uma sondagem com mais de 200 profissionais de investimento, realizada durante a Buy Side Week 2017, organizada pela Bloomberg em Londres no final do ano passado, mostrou o grau de incerteza: 51% dos participantes afirmaram que o mercado estava complacente em relação ao ritmo de aumento dos juros. “O mercado está subestimando os acréscimos nos juros nos EUA”, acredita Jayne Styles, diretora de investimentos da seguradora MS Amlin. “Não precisamos mais de medidas de emergência. Com menos ociosidade no mercado de trabalho, as pressões salariais vão aumentar.”
O ritmo de acréscimos pode ser intenso. Rupert Watson, responsável por alocação de ativos da Mercer, lembra que, no último ciclo de aperto monetário, em 2004, o Federal Reserve dobrou a taxa básica de juros nos EUA em um período de um ano. “As pessoas continuavam dizendo que haveria somente um ou dois aumentos adicionais, mas os juros chegaram a 6%”, diz Watson. Contudo, não é certo que os juros vão subir. A história recente mostra que sempre que as condições financeiras apertam e a aversão a risco aumenta, a possibilidade de acréscimos nos juros é subitamente descartada.
A busca por rendimento
Não se sabe as intenções dos bancos centrais e os investidores ainda se deparam com as menores taxas de retorno da história. É uma situação bem conhecida pelos investidores japoneses, que, devido a décadas de rendimentos baixos, foram empurrados para transações arriscadas. Há muito tempo eles estão preparados para entrar em segmentos sem liquidez do mercado de crédito ou aumentar a alavancagem. “É assim que pode ocorrer uma crise ainda mais profunda do que a de 2008”, alerta Emiel Van den Heiligenberg, responsável por alocação de ativos da L&G Investment Management.
Alguns investidores estão reduzindo a duração ou mesmo convertendo suas aplicações em instrumentos de altíssima liquidez (cash), na esperança de comprar barganhas — adquirindo títulos de modo oportunista quando os rendimentos sobem. “Afastamos os instrumentos de crédito das nossas carteiras”, revela Styles. “Não vamos acompanhar a curva de risco para perseguir retorno. As pessoas ainda não se machucaram, mas quem apostou em fundos de crédito e acha que vai obter retorno positivo todo ano vai se decepcionar.”
O panorama de longo prazo para ações é positivo, segundo muitos participantes do mercado. “Não acho que estamos subestimando o risco das ações”, diz Watson, da Mercer. Segundo ele, os bancos (que foram fonte de tantas preocupações desde que suas ações derreteram, em 2007-2008) estão “totalmente sólidos”. Embora ele espere uma recessão perto de 2020, devido ao superaquecimento da economia dos EUA, essa recessão seria “normal”, seguida de uma recuperação relativamente rápida da economia e dos preços dos ativos.
O crescimento global robusto deve dar suporte ao prolongamento do mercado comprador de ações (bull market), de acordo com Paul O’Connor, responsável pela equipe multimercados da Janus Henderson Investors no Reino Unido. Ele ressalta que todas as principais economias estão em fase de crescimento, o que não se via há uma década.
“Certamente existe escopo para crescimento decente da economia e dos lucros no médio prazo”, afirma O’Connor, acrescentando que o movimento puxado por liquidez dos últimos anos foi substituído em 2017 pelo movimento puxado pelo crescimento. Ações voltadas para crescimento ou com posicionamento técnico favorável entregaram desempenho muito superior ao das ações voltadas para valor em 2017, mas isso deve se reverter ao longo de 2018, quando as ações de valor passarão a dominar. “2017 foi um ano de transição”, explica O’Connor. As carteiras multimercados da Janus Henderson estão com alocação ligeiramente maior em ações, menor em títulos e com alocação crescente em investimentos alternativos, como fundos concentrados em contratos futuros ou fundos macro, que costumam apresentar performance melhor quando aumenta a volatilidade dos juros.
Europa e Japão vão superar Reino Unido
Em se tratando de ações, O’Connor está otimista em relação aos mercados emergentes, à Europa e ao Japão, mas menos entusiasmado com a perspectiva para o Reino Unido após o Brexit. A Europa finalmente está diminuindo a desvantagem em relação aos EUA, que sanou seus bancos e lançou o estímulo quantitativo anos antes da Europa. A recuperação sincronizada em toda a Europa ainda tem muito fôlego, na visão de O’Connor.
Os mercados emergentes também são uma boa aposta de longo prazo. O maior risco de decepção está nas medidas do governo chinês para impedir um superaquecimento do mercado. Até agora, a tensão entre crescimento e estabilidade tem sido bem administrada, mas não é fácil manter esse equilíbrio.
O Japão ainda oferece valor, apesar de o Nikkei 225 ter dobrado nos últimos quatro anos. Uma grande atração é a falta de correlação com outros mercados, em parte devido à estabilidade política e às contínuas medidas de estímulo monetário. Assim, o Japão tende a apresentar melhor desempenho quando o crescimento global se acelera, destaca O’Connor. “Então se houver surpresas com crescimento, como acreditamos, o Japão irá bem.”
Surpresas em termos de crescimento devem provocar elevação dos rendimentos dos títulos de dívida, o que beneficia os colossais bancos japoneses. Ou seja, o Japão é um dos poucos mercados que pode receber impulso do ciclo de aperto de juros.