Por Serviço Bloomberg Professional
Os mercados lidam com rendimentos baixos há praticamente uma década e não há perspectiva de mudança. Assim, os gestores de recursos enfrentam um desafio existencial: encontrar fluxos sustentáveis de rendimento ou perder a relevância. A reação de muitas firmas de investimento foi criar estratégias novas em busca de rendimento ou reformular estratégias antigas. Mais do que nunca, estratégias novas e menos conhecidas enfatizam a necessidade de gestão e redução de riscos.
Estratégias alternativas são atraentes não só por causa do potencial de rendimento, mas também por oferecerem acesso a mercados — frequentemente via derivativos — inacessíveis por meio de ações e títulos. Entre as estratégias alternativas que estão sendo lançadas por firmas de investimento tradicionais estão contratos futuros, macro, smart beta, empreendimentos de capital fechado, estratégias com ativos sem liquidez ou em situação de estresse, ativos de fronteira, nichos e situações especiais.
Casas tradicionais que expandem suas ofertas de produtos alternativos enfrentam desafios para lidar com uma variedade maior de riscos. Seus sistemas geralmente são montados para lidar somente com monitoramento e relato de riscos associados a instrumentos clássicos. Agora, esses sistemas precisam quantificar risco em carteiras de derivativos e integrar esse risco com carteiras de renda fixa e variável.
Os perfis de risco de instrumentos não tradicionais costumam ser diferentes. “Os dados podem parecer ótimos hoje, mas quando as coisas mudam, aparecem surpresas em estratégias como dívidas privadas”, conta o consultor independente de investimentos Pierre Guillemin. “É preciso reconhecer baixas contábeis e vender ativos no pior momento possível.” De modo geral, os atuais cenários de risco não levam isso em consideração, acrescentou ele.
A maioria das firmas está criando funções independentes de gestão de risco para lidar com riscos de liquidez, capacidade, emissor, contraparte e concentração, além de riscos associados à alavancagem em derivativos. Michael Amey, gestor de carteiras da Pimco Europe, explica: “Há uma grande diferença de preços entre investimentos líquidos e não líquidos. A razão fica óbvia em um ambiente de estresse, então garanta que está sendo pago pela liquidez que está proporcionando ou tomando.”
Com o uso mais frequente dos derivativos, também é necessário acompanhar a exposição a contrapartes e manter a visibilidade nas chamadas de margem. Em um mundo onde todos estão comprados, há pouca alavancagem — implícita ou não. No entanto, no universo dos derivativos, o impacto das chamadas de margem pode salvar ou afundar uma estratégia. Os gestores de fundos precisam realizar simulações para verificar o que uma nova transação pode significar para exposições a determinados ativos ou contrapartes.
Empregando a tecnologia
Investidores que precisam de novas estratégias não precisam expor as mesmas a um recuo significativo, nem temporariamente, segundo Marco Fasoli, sócio-gerente da AI Machines.
Para ele, somente tecnologias emergentes podem incluir controles de risco para proteção contra perdas do capital. “A maioria das estratégias subestima o risco de queda. O documento pode dizer que é 10% de volatilidade, mas o cliente pode acabar perdendo 35%”, ele disse. “É esse o risco que preocupa os investidores e somente a inteligência artificial pode tratar disso.” Fasoli afirma que mesmo uma pequena vantagem na previsão dos movimentos de preços gera grande melhora no risco de curto prazo, quando se compara com abordagens tradicionais de investimento.
Abordagens com base em tecnologia exigem profissionais com habilidades específicas que estão sendo recrutados por bancos e corretoras. Paralelamente, aceita-se que os sistemas internos de risco não estão equipados para lidar com muitas das novas estratégias e que a adoção de novos sistemas pode causar erros por falta de sincronia entre sistemas. Por isso, a gestão de riscos está cada vez mais terceirizada.
Riscos regulatórios
O risco que nenhum gestor de recursos pode ignorar é MiFID II. A Diretiva de Mercados em Instrumentos Financeiros da União Europeia entrou em vigor em 3 de janeiro de 2018, prometendo impacto profundo sobre a atividade de gestão de recursos, principalmente por meio das diretrizes que tratam de transparência, adequação de produtos e melhor execução. “Os gestores de fundos buscam melhor comunicação com clientes e a possibilidade de registrar todos os passos dos processos e querem manter registros para todos os aspectos de uma transação”, diz José Ribas, responsável global por Produtos de Risco, Tesouraria e Derivativos da Bloomberg.
Obter tudo isso não é simples, mas, no mínimo, é preciso ter um plano. “Como sempre, quando um problema é complexo, precisa ser dividido em componentes”, explicou Ribas. A tecnologia para alguns desses componentes talvez já exista e pode ser aplicada para fins relacionados a MiFID II e outras tecnologias podem ser desenvolvidas.
Promovendo integração da gestão de risco
Os órgãos reguladores estão mais convictos que os maiores riscos para os mercados financeiros envolvem produtos e atividades — e não as firmas de investimento em si. O setor está se alinhando a este entendimento. Gestoras de recursos estão se dando conta de que a função de risco precisa contribuir mais ativamente para os processos de investimento e não somente para a função de investimento, passando por desenvolvimento de produtos, aprovações e aparecendo em transações importantes.